sexta-feira, 20 de junho de 2008

Adelmo Campos for Red and Blues


Ficaram velhas depois que foram deixadas no fundo do porão da casa.
Nos dias que a porta se abria, elas olhavam para a luz que entrava, amarelada, cor de sol forte, e viam, junto com a poeira que se levantava, a silhueta que achavam ser dela.
Mal viam direito quem era e o vulto ia embora deixando-as vê-lo apenas pelas costas.
Muitas vezes, quando se reuniam, nos inícios da manhã, que o inverno fazia estar especialmente fria, reuniam-se e trocavam suas impressões sobre os acontecimentos últimos, idéias de vida longa, sorrisos raros e se achavam eternas. Etéreas que eram, na verdade, tinham vida apenas quando a porta se abria. Certa manhã quando acordaram, mal tiveram tempo de abrir seus olhos. Ouviram apenas o barulho da porta se abrindo. Foram colocadas em uma caixa de papelão, que cheirava ardido e doce, mijo de gato e mofo, como costuma ser este tipo de cheiro, abafadas para não gritarem. Depois viram uma luz forte vindo de uma fresta da caixa, e acharam que enfim veriam-na sob a luz do sol, mas a luz era amarela e azul. Cheiro de álcool tomou seus narizes, a fumaça entrou ardendo em suas gargantas, seus olhos não lacrimejaram, ardiam. E então choraram pela última vez. Já estavam todas juntas, derretidas, ardidas, esturricadas, quase virando fumaça, quando a caixa se abriu e puderam ver a aquela que havia incendiado suas vidinhas. A musa!

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