quinta-feira, 19 de junho de 2008

Adélia Prado, a própria

PARA O ZÉ

Divago, quando o que quero é só dizer te amo. Teço as curvas, as mistas e as quebradas, industriosa como abelha, alegrinha como florinha amarela, desejando as finuras, violoncelo, violino, menestrel e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne do que é feito, amo sua matéria, fauna e flora, seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas perdidas nas casas que habitamos, os fios da tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto: "Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros". Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível. Te alinho junto das coisas que falam uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece, tira de mim o ar desnudo, me faz bonita de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega, me dá um filho, comida, enche minhas mãos. Eu te amo, homem, exatamente como amo o que acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando os panos, se alargando aquecido, dando a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho. Amo até a barata, quando descubro que assim te amo, o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim, te amo do modo mais natural, vero-romântico, homem meu, particular homem universal. Tudo que não é mulher está em ti, maravilha. Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos, a luz na cabeceira, o abajur de prata; como criada ama, vou te amar, o delicioso amor: com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso, me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles eu beijo.



O SEMPRE AMOR

Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é a coisa que mais quero.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é a coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
sou de pedra sabão.
Alegre ou triste,
amor é a coisa que mais quero


AMOR VIOLETA

O amor me fere é debaixo do braço,de um vão entre as costelas.Atinge o meu coração é por esta via inclinada.Eu ponho o amor no pilão com cinzae grão de roxo e soco. Macero ele,faço dele cataplasmae ponho sobre a ferida.
Uma noite de lua pálida e gerâniosele viria com boca e mão incríveistocar flauta no jardim.Estou no começo do meu desesperoe só vejo dois caminhos:ou viro doida ou santa.Eu que rejeito e exproboo que não for natural como sangue e veiasdescubro que estou chorando todo dia,os cabelos entristecidos,a pele assaltada de indecisão.Quando ele vier, porque é certo que ele vem,de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?A lua, os gerânios e ele serão os mesmos- só a mulher entre as coisas envelhece.De que modo vou abrir a janela, se não for doida?Como a fecharei, se não for santa?

O HOMEM COM A FLAUTA

"Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com a boca e mão incríveis tocar flauta no jardim. Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos:ou viro doida ou viro santa. (...) De que modo vou abrir a janela, se não for doida?Como a fecharei, se não for santa? (...) Para o homem com a flauta, sua boca e mãos, eu fico calada. Me viro em dócil, sábia de fazer com veludos uma caixa.O homem com a flauta é meu susto pênsil que nunca vou explicar, porque flauta é flauta, boca é boca, mão é mão. Como os ratos da fábula eu o sigo roendo inroível amor. O homem com a flauta existe?"

CANÇÃO DE JOANA d'ARC

A chama do meu amor faz arder minhas vestes. É uma canção tão bonita o crepitar que minha mãe se consola, meu pai me entende sem perguntas e o rei fica tão surpreendido que decide em meu favor uma revisão das leis.


A MEIO PAU

Queria mais um amor. Escrevi cartas, remeti pelo correio a copa de uma árvore, pardais comendo no pé um mamão maduro - coisas que não dou a qualquer pessoa - e mais que tudo, taquicardias, um jeito de pensar com a boca fechada, os olhos tramando um gosto. Em vão. Meu bem não leu, não escreveu, não disse essa boca é minha. Outro dia perguntei a meu coração: o que que há durão, mal de chagas te comeu? Não, ele disse: é desprezo de amor.


OS LUGARES COMUNS

Quando o homem que ia casar comigo chegou a primeira vez na minha casa,eu estava saindo do banheiro, devastada de angelismo e carência. Mesmo assim,ele me olhou com olhos admiradose segurou minha mão mais que um tempo normal a pessoas acabando de se conhecer.Nunca mencionou o fato. Até hoje me ama com amor de vagarezas, súbitos chegares. Quando eu sei que ele vem, eu fecho a porta para a grata surpresa.vou abri-la como o fazem as noivas e as amantes. Seu nome é: Salvador do meu corpo.

PSICÓRDICA

vamos dormir juntos, meu bem, sem sérias patologias.

meu amor este ar tristonhoque eu faço pra te afligir,

um par de fronhas antigas onde eu bordei nossos nomes com ponto cheio de suspiros.

ENREDO PARA UM TEMA

Ele me amava, mas não tinha dote, só os cabelos pretíssimos e um beleza de príncipe de estórias encantadas. Não tem importância, falou a meu pai, se é só por isto, espere. Foi-se com uma bandeira e ajuntou ouro pra me comprar três vezes. Na volta me achou casada com D. Cristóvão. Estimo que sejam felizes, disse. O melhor do amor é sua memória, disse meu pai. Demoraste tanto, que...disse D. Cristóvão. Só eu não disse nada, nem antes, nem depois.


Continua depois, não agora...ai, ai...

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