terça-feira, 24 de junho de 2008

Oras! Sempre as horas

No entorno da sua blusa verde me entornei e me enrolei ao falar-lhe as primeiras palavras. Ela me fitou com seus grandes olhos. Eu nunca a tinha visto tão tão bela e sedutora. Seu olhar me afastou, mas a vontade de falar-lhe fez resistir e insistir.Ela era a mulher mais linda, com certeza, da festa. Ela sabia disto e não se esforçava. Era naturalmente chamativa sua beleza. Agora que a via de novo tão próxima não sabia o que dizer, onde colocar as mãos. Sabia que se demorasse a falar-lhe, ela seria chamada para novos fotos, eram muitos fotografos que queriam fotografá-la, e eu queria, na verdade levá-la para fora no jardim onde eu poderia dizer que sabia de tudo. Seis meses antes deste encontro as coisas não seriam como agora tão confusas e claras ao mesmo tempo. Eram tempos que havia apenas trabalho em minha cabeça e agora, cansado, era a hora de descansar em algo. Os dias, naquele tempo tão quentes, eram mais longos e quando eu chegava e a encontrava em casa, era como se meu mundo mergulhasse em algo viscoso, que me engolia e entorpecia. Não sentia quase o gosto da comida e a cama não era o melhor lugar para descansar. Ela quase nunca me procurava para fazermos amor e apesar do meu cansaço eu dormia virado para o lado contrário, sempre esperando seu toque em meu ombro, mas isto nunca conteceu. Eu já não a olhava nos olhos. Meu maior receio era de que percebesse que a aventura que haviamos proposto viver, tinha acabado. Sei que para ela não seria difícil, mas para mim seria terrível. Eu não a amava mas a paixão não tinha acabado dentro de mim. Por isto era tão difícil olhar em seus olhos e confessar que eu havia fracassado em fazê-la viver feliz ao meu lado. Depois de algum tempo ela começou a viver como se o amanhã fosse certo e isto me irritava, pois os dias eram para mim únicos, incomparáveis. Não sei me esforcei para lhe mostrar claramente isto, ela não prestava atenção mesmo. Quando sentia seu perfume nos cabelos ou em suas pernas e lhe falava isto, ela apenas ronronava e não me desafiava para dizer mais. Desafio. Era isto que sentia ao me aproximar dela esta noite. Senti meu corpo todo e me pus ereto para mostrar confiança. Ela me demonstrou em um olhar que estava na defesa. Perguntei-lhe porque não respondia meus recados e ela se fez de desentendida e desinteressada em responder. Dei de ombros, não fazia diferença agora. Eu tinha lhe escrito dezenas de vezes e nunca me respondeu, nem de forma indireta, se havia algo que lhe havia tocado. Esbarrei de leve em seu vestido verde e toquei a ponta do meu sapato em sua bota. Pedi-lhe desculpas como quem esbarra em alguém na rua. Sem esperar resposta. Tinha pressa e falei-lhe no ouvido chamando para irmos para o jardim, apesar do frio era o melhor lugar. Queria vê-la novamente sob a lua, tocar seus cabelos, agora cacheados e de outra cor. Estava linda. Quando a conheci era a mais bonita e comunicativa da turma e seus amigos diziam que era muito inteligente. Acabara de se formar e já trabalhava, muito. Eu fiquei impressionado com ela desde o início, tão nova e batalhadora. Em sua cidade, no interior do estado, era a princesa de todos. Talvez se sentisse assim nesta festa. Todos estavam de olho no que ela iria fazer nos próximos dias. Era uma artista, uma star, uma pessoa que todos fitavam e obedeciam como escravos. Ela gostava disto naturalmente e seus gestos no meio daquilo tudo eram suaves, naturais. Mas fortes e marcantes. Diziam que ela malhava muito para manter seu corpo tão magro. Vendia saúde. Em outros tempos eu a teria seduzido e levado para longe daquela festa. Mas hoje, não sei se conseguiria tocar-lhe. Estava velho e fora de forma física e meus olhos, o mais chamativo que ela achava, estavam cobertos por grossas lentes. Antes eu a carregaria com facilidade. Como daquela vez na praia em que a carreguei para mostrar como eu era forte. Exibicionismo puro. Os jovens são assim. Ela confiava em mim e eu me entreguei a isto com todo empenho. Susteia em mim durante todos aqueles anos. Mas agora ela não precisava de mim para contar-lhe histórias durante os acampamentos, na fogueira, ou durante as viagens que faziamos para o norte todos anos. Como eu a amei. Foi amor a primeira vista e eu disse para todos que a teria, e nossos amigos me disseram que ela amava outro. É paixão, apenas paixão eu disse. Convicto disse que ela me amaria. E me amou. Chorava quando minhas viagens demoravam mais que o programado e quando voltava faziamos amor de modo inexplicável. Para quem já estava junto a tanto tempo. Aquele momento no salão de festas de um elegante hotel, não podia ser rápido como teria que ser. Estava ainda apaixonado por ela e queria dizer-lhe isto pessoalmente, mas ela fugiu durante vários dias não ligando nem quando lhe mandei flores. Do campo, pois nunca lhe mandei rosas. Achava que era pouco para demonstrar como eu a amava e admirava. A vida sempre foi corrida para mim e não poderia de forma alguma deixá-la ir sem explicar o que havia acontecido, assim tão rápido . Porque eu voltara e mais ainda porque eu tinha deixado tudo para outro. Ela se adaptou rápido. Foi isto que me fez não voltar logo em seguida. Quando soube que ela era feliz com outro, eu mergulhei para dentro de mim e descobri que ninguém é tão profundo. Ademais eu já me conhecia e o que eu sempre quis era me mostrar, deixar que ela me visse, transparente e totalmente. Sou dela. Mas nós não sabiamos mergulhar juntos. Nado sincronizado não foi a escolha certa. Quando a fitei na festa senti que ela não acreditava em mim e por isto preparei-me para o pior.

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