quarta-feira, 2 de julho de 2008

outra coisa

Sou sombra,
nuvem cheia e copo com água em cima da pia.
Se deixar eu derramo,
entorno.
Quando encosto na cabeceira dura da cama é que me dá vontade de chorar baixinho.
Bem baixinho.
Meu cachorro uiva pra lua e eu olho pra ela e ela não me vê.
Às vezes penso que ela é burra.
Né nada, minha tia Célia dizia.
Isto é coisa de lua nova, quanto menos se vê, mais quer.
Conheço pessoas que nunca foram na minha casa,
que nunca ficaram perplexas ou paradas.
O touro é que não gosta delas.
Eu tenho uma dorzinha que me incomoda de vez em quando,
Quando ela some de todo,
eu cutuco ela pra me ver vivo,
loquaz,
atendido nas minhas perdidas esperanças.
Queria ter companhia pra chorar de noite,
noite e dia, noite e dia, noite e dia.
Chorar sozinho é bom quando não se quer companhia.
Eu quero derramar aquele copo d'água inteirinho,
mas na boca de quem não escuto a voz, mas sei que já chegou.
Reconheço gente de olho fechado, se tiver perfume bom,
se tiver uma mão macia ou cabelo de anjo.
Desesperei uma vez quando me sumiu todo meu amor.
Nem sabia que tinha ainda daquele jeito.
Depois enchi-me de coragem e fui pegar a roupa no varal,
catar limão,
lavar calçada e depois entrei em casa.
Estas coisas eu faço pra me pegar sozinho
e me convencer que a vida é só isto.
Mas eu tô olhando lá da janela e grito:
Corre Marcos que vem chuva!

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