domingo, 30 de novembro de 2008

presente

Não é somente o basta que não completa o que me resta.
É o interesse egresso do que fui neste tempo.

Me enchem as cheias e as meia luas, precursoras de luz ausente.
Metade de escuridão do outro lado que me vejo posto.

É a certeza do certo sobre o errado.
Tampando o possível, o imaginário, o abstrato e temporal tempo eterno.

Enquanto dure, enquanto em mim, em quanto ficaria as custas de ficar também aí.

São estas falas que me fazem pertencente a ti e ao tosco esboço de relacionar isto com um sentimento de um par.
Lá também estão juntas as almas de quem não é meu nem seu;
o campo do sonho, do futuro limpo.

Tênue pensamento, profético ato de ver o nosso, com o de outro que também sonha.
Resta o que me resta, para me bastar, para trocar de memória, de parar o olhar pra frente.

O ausente está presente claramente, lindamente, eficazmente verídico.
O real me assola, me enche de completo desastre, inevitável preenchimento.

O soslaio me convence.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

fotos

Esta é você.
A que me amedronta,
não sei seu medo.
Sua condição para ditar algo que eu anote em meu caderno.
Esta é a outra de você a me deliciar os olhos e arrepiar a têmpora.
Espantar a indecisão.
Prefiro as duas que nenhuma,
prefiro o olhar pra foto de que nenhum por mim.
Aquela me senta na posição em que estou,
na cama feita pra dormir.
Esta outra você,
traga pra dentro,
por dentro a trago,
foge,
traz e me dá os passos.
Solidifica e constrói,
por paciência e distância,
no canteiro do seu olhar.
Eu sou seu, você que não é outra.

sorriso diverso

Um sorriso único, certa e convicta
Em um digno olhar, clara visão
Fácil amar tanta luz, tanta razão
Momento em todo tempo da vida

Pensar em quais das faces?
Em suas posses, suas poses
Seus dedos longos, seus dentes
Suas marcas, seus de repentes

Várias e várias vezes apagar
Chorar os sem respostas
Viver pra pensar em ter
Dormir com pressa em não ser.

domingo, 23 de novembro de 2008

vôo

sempre, todo dia, tenho uns pedaços pra viver,
pra continuar pousando e voando,
pousando e voando.
meu coração decola só.
e sabe? ele sabe que o horizonte nunca será dele.
por isso o pouso.
aterrisar é buscar entre as árvores uma fruta com água dentro,
um animal entre as folhas que o devore inteiro.

sábado, 22 de novembro de 2008

sim

Sim, mas e daí?
Se não ouve o que falo,
se não houve fala?
Se engano é minha impressão e enganar é a sua?
Se preciso que precise desde o início e se você é tão precisa em não precisar?
E agora que faço com o que quis fazer se você sempre fez questão de nada fazer?
E a lua? O que falo pra ela?
E depois que você se esquecer como faço pra lembrar-me para esquecer?
É você que me trás o impedimento e o avançar, querendo ou não.
Sendo ou não, estando ou não.
E daí?

caso

Quebrou-se.
Mas o que é ainda está aqui.
Despedaçado, separado sem colagem possível.
Os pedaços são cada um de outra importância,
multiplicada em atenções e eficácia em fazer pensar.
Quero ter mãos gigantes para juntar-los ao meu coração,
enfiar-los dentro de volta, em mim.
Considero montanha e morro a mesma coisa.
Daqui das terras mineiras,
o olhar de escalada,
de subida custosa,
dá o mesmo prazer quando é por algo que leva pra longe ou pra perto.
Lavo a cabeça é no tanque, com sabão de coco,
enxáguo enfiando a cabeça toda dentro d’água,
e aproveito e te chamo pra mergulhar comigo na cachoeira,
pra lavar a alma,
pra escapar de onde me quer você.
Volto a abrir a janela grande e de vidro,
vento me mostra o frio que abraço como se fosse seu corpo.
Esquento o tempo todo meu corpo pra que te aqueça,
caso queira,
caso precise,
caso me esqueça.

escorro

A terra que piso é santa, compactada,
com a chuva dos dias de entrada do verão,
ela foi se soltando, grão a grão,
e escorrendo.
Primeiro à minha volta, eu vi,
depois por debaixo de mim.
As flores dobraram os caules.
Escorregadio o piso, caí,
tentei manter-me de pé,
segurei em plantas novas,
recém nascidas, pequenas,
mas ainda assim tentei me agarrar a elas.
De joelhos estou olhando para onde estava,
espero o sol secar a terra.
Subida de volta,
ou continuo escorrendo?

Apenas dois pontos de vista que foram vistos,
errado e maldito, gêmeos não parecidos.

Escolha outro doce, rode em volta da mesa,
a conclusão não será a mesma.

Entendimento e tempo se combinam,
esperando o saber daqueles que amam.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

era

Era surdo, era mudo, era falado.
Era tudo, era mundo, era fundo, era gritado.
Era meu, era seu, era para mais ninguém.
Era estrela, era planeta, era lua.
Eram os meus olhos, os seus, eram olhares.
Era pensamento, era momento, era saudade.
Era suspiro, respiro, era sem ar.
Era fome, era jejum, por dias inteiros.
Era sonho, era insônia, era acordar.
Era verdade, era mentira, era no meio.
Era encontro, era perdido, era esbarro.
Era conto, era canto, era poesia.
Era espanto, era, um tanto,
Era um tanto, era no entanto,
bastante.
Era você, era eu,
por eras.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

seu 2

Vento sempre trouxe tristeza,
sempre levou embora saudade de nunca.
A própria saudade.
Aquela espera de alguém que chega e abraça sonhos.
Beijo com a boca ainda seca.

Vento transeunte que dá a volta em volta da casa.
E sempre volta ele mesmo
Dono de mim que me leva pra quem me queira
Pra quem brinca comigo
Dedos nas pontas dos meus.

corrige

Seu crer espanta,
sopra o sentido correto.
Suas falas deturpam,
de todo o escrito.
Sua verdade,
corrige a rota.
Meu credo,
era vento de tempestade.
Minhas falas,
foram poucas.
Meu escrito,
foi o sentido.
Meu caminho,
é o seu

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

nada 2

Ainda que haja tempo para incompreensível misericórdia,
Que seja perfeita a fórmula dos pares,
Mesmo que a paixão espalhe as folhas escritas,
Não teria, eu, o dia.

Apesar da certeza que impede o errar,
Mesmo que não seja exato escolher,
Que seja o claro sobre a escuridão,
E impossível viver o amar.

Agora não espero mais cartas,
Escrever pede notícias de ontem,
Olho para dentro do rosto,
Hoje não terei o hoje.

Os contornos serão disformes aos olhar,
O céu pesará sobre a cabeça,
As falas serão igualadas,
Sem a incerteza, viverei?

domingo, 16 de novembro de 2008

esta alegria fingida

Esta alegria fingida.

Esta fugidia de mim.

Estes dedos que chupam doces.

Restos nas pontas que agora apontam somente para mim.

Não tenho mais que deixar de escolher,

faço apostas no dia de hoje

Recolhi o resultado antes da meia-noite.

Suporto tudo,

menos a revolta pelo amanhã já escrito no livro que já me deu.

Estendo a toalha no úmido mesmo,

o cheiro que fica destoa de tudo que é de hoje.

Minha cara lavada,

minha cara do pau de ferro,

está mais dura,

mais feia,

mais cortante aos meus olhares.

Ou eu fiquei mais moço?

Depois que aprendi a jogar-me do alto de edifício,

ficou mais fácil ser passarinho,

mesmo sem as asas que criei quando me apaixonei.

sábado, 15 de novembro de 2008

fim

Quero pintar os muros,
abrir portões em seus tijolos escuros,
arrancar a grama do meu jardim,
tomar a chuva que hoje cai sem fim.
Quero subir morros com barro escorrendo em enxurrada,
quero lago transbordando e levando meus pertences,
quero que me cegue a manhã coberta de névoa fria.
Hoje em mim eu não quero nada,
quero ser nada,
quero não pensar e nem escrever.
Quero não querer,
não lembrar e nem ser.
Quero seu pensamento voando e sentindo livre queda,
ao vento,
descendo,
colhendo sua resposta,
sua melhora,
seu destino e desejo.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Lua cheia

Toda hora eu vou lá na caixa.
Pra ver se alguém deixou carta, bilhete ou uma citação.
Escuto música baixinho e aquelas letras entram gritando:
tô querendo, tô parado, tô pensando.
Os muros daqui de casa já descascaram de esperar alguém subir neles
e olhar para os lados onde o sol brota.
Por onde vem seu viver.
Se ventar fosse seu nome, teria você no meu rosto todo dia.
Vi que a lua não dá fome, não faz companhia
e nem cantarola no meu ouvido.
Ela fica é me olhando como se esperasse que eu saisse daqui correndo
e fosse morar em coração de almofada,
com azul bordado nos seus cantos e mão sobre minha cabeça.
Acalma bichinho ferido!
Olho a estrada prá trás e me dá vontade de te chamar
pra ver onde eu tenho andado cantando
e uivando feito lobo de bosque.
Boto em você seu chapéu
e cubro uma parte do olhar
que nunca será tanque pra eu mergulhar.

sábado, 8 de novembro de 2008

certa

Esta tua certeza me provoca um sentimento de querer te dominar.
Prender-te em meus braços até confessares que me desejas peito a peito.
Presos em teus olhos, meus olhos vão para onde me levares também.
Se for ali que poderei te ter como doce na ponta da língua, deliciosamente saborosa, eu estarei.
Conquista-me de forma calma, passo a passo, como andasse em tuas terras.
Como se eu fosse onde deves plantar suas plantas de sabores que preferes.
E quando quiseres colher, de acordo com a estação, me pegue pela mão, me leve junto a ti para provar seus sabores.
Cante-me sua canção preferida, ensina-me teu tom, faça tua melodia em minha vida.
Constranjo-me dizer-te teu, apressado em querer ter-me conquistado por ti.
Faça-me, toma-me.
Quero-te, enquanto sou teu.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

é melhor

Posso entregar-te para sua vida
Devolve-la ao caminho
Fechar meus olhos ao te ver dançando
Cobrir minha cabeça a luz da lua
Fechar a boca ao cantor
Contar pra quem quer o que quero
Sumir no trãnsito quando te ultrapassar
Orar ao Santo pra te dar seu tanto
Escrever no canto do seu aroma
Escolher calado, por você.

suas coisas

seu cabelo preso
seus olhos semi fechados
seu fluxo
seu refluxo
sua cor
sua dança aos treze
seus cadeados
seus cds estragados
sua crença
seus músculos
suas pintas
seus relógios variados
seus ouvidos
seus gritos
seus suaves exercícios
seus alongamentos
sua bronca
sua sandália branca
suas camisetas
suas poucas palavras
suas aulas
seus pulos
seu cabelo solto
sua roupa rosa
sua roupa verde
sua boca
seus olhos
sua voz
suas abelhas
nossa bicicleta pra ir embora

loucura

ao te causar um algo, isto me dará cinco minutos de prorrogação no meu tempo ao teu lado.
ao teu olhar no meu, me ligarei a ele com a liga da cumplicidade implicita e querida por ambos.
ao teu desejo de amar, me estabilizarei no tempo para que se decida antes de se entregar um ao outro.
às tuas festas, eu me juntarei com total alegria em saber que anos virão com a alegria de ser querida por muitos.
ao teu tempo, eu estarei distante em algum momento provável e desejo que ainda distante.
ao teu desejo por mim, darei um passo em direção ao seu um passo.
ao meu sonho este, me tenha como louco.
à minha loucura, me tenha são de desejo de ser tua toda minha loucura por te ter.

sábado, 1 de novembro de 2008

algo

Teu algo me faz.
Algo teu me fez.
Sou algo teu.
Algo sou
Com teu algo.
Sou teu
Meu algo.
Algo meu,
Sou teu,
Todo teu.

tentativa

Onde eu busco o remédio para o passo certo,
Onde dou ao destino a chance de não me achar,
Onde a censura passará sem me marcar,
Onde está o amor que me cercará de concreto?

Isto tudo me tranca onde quer que eu esteja,
Já voei por causa disto mas agora estou parado,
Sentindo-me por dentro como quebrado,
Meus olhos estão fechados e o coração lateja.

A vida não contará o que não vivi,
A quem minha alma se apegou,
Nada colherá a lágrima que verti,
Estou olhando a porta que se fechou.

Não havia quem entendesse as palavras,
Quem quisesse apenas senti-las,
Para guardar um alimento que cresceu por muitos anos,
Esperando quem colhesse os ramos.

Caiu a semente na areia,
A ave que a come, voa,
E eu olho, asas abertas dela,
Escreve o nome que não é meu.

caminho

Cheguei em um lugar que não sei qual é.
Num momento estava caminhando sob o sol,
Mas agora olho pra cima e somente vejo planetas.
Todos são distantes e não consigo tocá-los.

Já tive estrelas nas mãos,
Toquei cordas que soaram em ouvidos brancos,
Voei com o vento no alto das montanhas,
Já vi a terra se abrir para a planta nascer.

O que me trouxe até aqui,
Como construí esta parede tão alta,
Qual a cor do ultimo olho que vi,
Qual era o tom daquela voz?

Desenhei contorno em dedos longos,
Envolvi meus braços em corpos amáveis,
Amei momentos eternamente,
E passei horas esperando um retorno.

Agora, neste exato agora,
Eu tenho a companhia do ausente,
Eu tenho a memória do sonho,
Passado enclausurado dentro de mim.

A chave,
Não é a mesma.
Não sou mais eu
Não ando mais só.

boca

Me beija!
Sua boca pede.
Beijo!
Quero um beijo!
Ela suplica.
Atender a este pedido é quase um pecado,
pois tampa-los à visão parece errado.
Sentir tão saborosos lábios,
tão macios lábios encostar os meus,
é ir e voltar,
ir e voltar,
ir e voltar.
Pede de novo belos lábios:
Me beija!

esquecera

Esquecer me parece uma prece de quem prefere não sentir ao ver a outra parte de quem nos vê como uma chama.
Um pedaço da alma minha,
sei não qual, une-se ao que a toca e aquela muda de cor, se transforma em algo alongado, esticado, impossível de se manter normal em forma reconhecível.
Acho que é como a alma fica dentro de mim que me incomoda o corpo.
Os poros do meu braço não sudoram normalmente,
sinto o vento sair com força por eles,
parece asa pedindo para crescer e se aventurar por onde não tem chão por perto,
onde só tem o cheiro do ar, nuvem branca e arco-íris cor de rosa.
Não dá pra ver o verde lá em baixo,
mas gosto de saber que ele está ali.
Completamente e repleto de esperança por uma segunda ou quarta chance,
eu pulo o terço pois eu sei que a terça parte é sua pra descansar e guardar o dia que é santo.
Sei salteado quais são os dias.
De trás pra frente eu lembro e de frente pra trás eu sonho.
Então eu não esqueço, não apago, apenas escrevo sem parar.
Esquecer é a fórmula que eu fiz pra lembrar sempre de tentar não esquecer.