domingo, 22 de maio de 2011

s

não sei se mal ou bom.
sei de memória,
do lagarto no congelador
à espera de ser cozido,
sei do tapete vermelho e preto.
não sei se lembro, ou se esqueço.
Escrito por Xico Sá às 15h58

21/05/2011
FOLHA DE SÃO PAULO




Como observar a pessoa amada quando dorme


Sábado é dia de murchar a bola do realismo aqui neste pedaço e ser, em outras palavras, muuuito romântico.
Quem sopra o mote é o velho escritor Alberto Moravia, o comuna mais lírico do mundo, sempre aqui na cabeceira: "Amar, além de muitas outras coisas, quer dizer deleitar-se na contemplação e na observação da pessoa amada”.
Está certo o romano e tem como avalista outro gênio, o recifense Antônio Maria -o grande cronista que aparece com ciúmes até dos apresentadores da tv no livro da Danuza: "Um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta."
Experimente você também, sensível rapariga, vê o seu homem quando dorme. Há uma beleza nessa vigília que os tempos corridos de hoje não percebem.
Amar é... vê-lo(a) dormindo. Como aí na ilustração picassiana na cumeeira do texto.
Cada mexidinha, cada gesto. O que sonha nesse exato momento? Tomara que seja comigo, você pensa, pois o amor também é egoísmo.
Gaste pelo menos meia hora por semana nesse privilegiado observatório.
Psiuuuuu!
Ela dorme.
Mãozinha no ar, como se apanhasse pássaros, que coisa mais linda. Uns 23 minutos assim, mirei no rádio-relógio. A mão desce ao colchão, quase dormente, formigamentos. Coça o nariz. Põe a mãozinha direita entre as coxas. Agora vira de lado, como os antigos LPs quando gastavam as seis músicas do A. E me abraça como nunca fosse partir, corpos viciados, almas em busca de um acerto.
Dorme, meu anjo.
Ela obedece.
Vigio o sono dela como um soldado zapatista.
Como um cão zela o sangue do dono.
Como se fosse um homem-exército e pronto.
Amar, no início era o verbo intransitivo da alemã professora de amor de Mario de Andrade. O idílio tem sobrevida, não como gênero, mas como vício, vício de amar. Amar de muito.
A mão desce agora sobre o meu peito, como se medisse meus batimentos.
A mão direita volta para a arte de apanhar pássaros, que beleza, que diabos!
O ideal é que você, leitora, durma do lado esquerdo da cama, o do coração, sempre.
Mãozinha no ar catando pássaros. Até se acalmar de vez.
Calmaria danada de horas, sem coreografias ou narrativas. Sonha, sonha, sonha, minha menina.
Como é lindo a vigília ao sono dela.
Coça o nariz. Sussurra umas onomatopeiazinhas lindas de sonhos de besouros.
Ela arruma os cabelos como algas, entorpeço num mergulho.
Observar o sono do(a) amado(a) é a melhor maneira de conhecer o homem ou a mulher com quem dormimos.
E como são lindas aquelas marquinhas deixadas pelos lençóis no corpo dela. Um mapa de delírios. Melhor é lê-las como quem adivinha os sonhos e o futuro no fundo da xícara árabe ou nas cartas.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

musiquinha no ritmo de pagode

você pensa
você diz
mas não me deixa
não me deixa
não me deixa no início do caminho.
nao me deixe ficar
sem me lembrar
que amar é assim
exatamente como tem me ensinado.
minha amada
minha tudo
você pense
e me diz
que não me deixa

music for nothing

I've been so many places in my life and time

I've sung a lot of songs, I've made some bad rhyme

I've acted out my life in stages

With ten thousand people watching

But we're alone now and I'm singin' this song for you



I know your image of me is what I hope to be

I've treated you unkindly but darling can't you see

There's no one more important to me

Darling can't you please see through me

'Cause we're alone now and I'm singin' my song for you



You taught me precious secrets of the truth, with holdin' nothin'

You came out in front and I was hiding oh yeah

But now I'm so much better so if my words don't come together

Listen to the melody 'cause my love's in there hiding



ooh yeah yeah yeah yeah ohh



I love you in a place where there's no space or time

I love you for my life, 'cause you're a friend of mine

And when my life is over, remember when we were together, together

We were alone and I was singin' my song for you



Oh I, oh I love you in a place where there's no space or time

I've loved you, I've loved you, loved you for my life, oh, you're a friend of mine

And when my life is over, remember when we were together baby

We were alone and I was singin' my song for you, ooh

We were alone and I was singin' this song for you

Say, we were alone and I was singin' my song,

Hey, Singin' my song, singin' my song, singin' my song

Singin' my song

quinta-feira, 14 de abril de 2011

forma de (se) viver-se

sempre achei que triste era a forma de viver e de sentir-se, tão.
e, hoje, morro.
nela.

à tristeza.
tchin, tchin! (antiga expressão chinesa que quer dizer: saúde!)

triste

triste;
é de onde parto.
de onde espero,
e parto.
a tristeza para mim é um ponto de onde espero a dor passar, ou ficar.

segunda-feira, 28 de março de 2011

seu

não!
não quero aqui dizer!
quero dizê-lo ao ouvido.
soprar no seu ouvido.
eu amo você!
quero vivê-lo!
o amor.
seu!

domingo, 20 de março de 2011

poesia

o que era poesia?/poesia era o que eu queria
o que é querer?/querer é hoje o meu viver

domingo, 20 de fevereiro de 2011

o outro

eu nasci no dia seguinte à morte do meu pai. alguém me disse, no mesmo corredor da nossa casa onde meu pai caiu e não se levantou mais:
- agora você é o homenzinho da casa. precisa obedecer sua mãe e ajudar a cuidar de seus irmãozinhos.
eu queria ser formiga nesta idade. ficava horas, no fundo do prédio da quadra 406, bloco d, brasília, olhando as formigas trabalhando. achava aconchegante o ninho.
eu era o caçula. o que esperavam de mim exatamente? não entendi bem, mas depois. muito tempo depois aquelas duas frases pesaram em mim como luva de concreto em minhas costas.
lembro do sol e do cheiro de rosas no enterro do meu pai, e, lembro também de tia célia pegando os pés do meu pai no caixão e puxando ele para baixo. último conforto. meias pretas finas. cheiro de rosas.
nunca mandei rosas pra ninguém. apenas flores do campo que descobri não terem cheiro quase nenhum.
tomava remédio naquela época, tinha eu seis anos pra sete. remédio grande, de ferro. fingia que engolia e ia para a janela ver se via míriam, a bangulea como dizia meu avô. aproveitava e cuspia  remédio. fiquei mirrado.
lembro de coisas pequeninas; o farol do carro do meu pai na igreja metodista - outro dia fui no googlemaps e ela tava lá, menos a bolinha de tênis que os meninos grandes jogavam por cima dela - as placas dos carros estacionados de lado, o frio das escadas, a míriam com seu cabelo engraçado, meu avô falando; a namorada do marcos é banguela, é banguela, é banguela...
lembro de sempre sonhar o mesmo sonho, desde de brasília: um jipe, um terremoto, um templo grego, morte e pavor. acordava e anos depois vinha o sonho de novo.
sonhava também em ter casa grande, família grande, quatro ou seis filhos. sonhava ser piloto de carro, professor, desenhista, marido, apaixonado. fui deixando de sonhar e sendo. e perdi um pouco ali e um pouco daqui. sonhava ser jogador de futebol, fruteiro, jornaleiro, bancário, vendedor, amor de alguma vida. e consegui e fugi daí e de lá.
sonhava em estudar e deitava debaixo do móvel e fingia sonhar; professora esqueci a régua, perdi o lápis, vou pra escola militar, pro tiradentes, voltar para o instituto de educação. vou ser agronômo um dia. só pra desperdiçar o saber. gostava tanto de ler e agora leio as capas e me dá preguiça saber que acaba. quase tive um susto quando mergulhei no mar. achei que morria, mas depois vi nem era tarde pra tentar me salvar. e me salvei e cheguei à praia.
hoje tenho medo, ontem tinha apenas certeza do dia.
saudade de te ver como via. s
em saber onde perdi, onde vou procurar?
perdi a confiança em mim. não tenho certeza de tudo, como tinha.
fui tanto pra tantos. achei que era.
não fui nada, ninguém me busca.
tenho medo de ser eu, o outro.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

delícia de texto

http://perdendo-o-medo.blogspot.com/2011/07/dueto-virtual-de-um-romance-astral.html