domingo, 20 de fevereiro de 2011

o outro

eu nasci no dia seguinte à morte do meu pai. alguém me disse, no mesmo corredor da nossa casa onde meu pai caiu e não se levantou mais:
- agora você é o homenzinho da casa. precisa obedecer sua mãe e ajudar a cuidar de seus irmãozinhos.
eu queria ser formiga nesta idade. ficava horas, no fundo do prédio da quadra 406, bloco d, brasília, olhando as formigas trabalhando. achava aconchegante o ninho.
eu era o caçula. o que esperavam de mim exatamente? não entendi bem, mas depois. muito tempo depois aquelas duas frases pesaram em mim como luva de concreto em minhas costas.
lembro do sol e do cheiro de rosas no enterro do meu pai, e, lembro também de tia célia pegando os pés do meu pai no caixão e puxando ele para baixo. último conforto. meias pretas finas. cheiro de rosas.
nunca mandei rosas pra ninguém. apenas flores do campo que descobri não terem cheiro quase nenhum.
tomava remédio naquela época, tinha eu seis anos pra sete. remédio grande, de ferro. fingia que engolia e ia para a janela ver se via míriam, a bangulea como dizia meu avô. aproveitava e cuspia  remédio. fiquei mirrado.
lembro de coisas pequeninas; o farol do carro do meu pai na igreja metodista - outro dia fui no googlemaps e ela tava lá, menos a bolinha de tênis que os meninos grandes jogavam por cima dela - as placas dos carros estacionados de lado, o frio das escadas, a míriam com seu cabelo engraçado, meu avô falando; a namorada do marcos é banguela, é banguela, é banguela...
lembro de sempre sonhar o mesmo sonho, desde de brasília: um jipe, um terremoto, um templo grego, morte e pavor. acordava e anos depois vinha o sonho de novo.
sonhava também em ter casa grande, família grande, quatro ou seis filhos. sonhava ser piloto de carro, professor, desenhista, marido, apaixonado. fui deixando de sonhar e sendo. e perdi um pouco ali e um pouco daqui. sonhava ser jogador de futebol, fruteiro, jornaleiro, bancário, vendedor, amor de alguma vida. e consegui e fugi daí e de lá.
sonhava em estudar e deitava debaixo do móvel e fingia sonhar; professora esqueci a régua, perdi o lápis, vou pra escola militar, pro tiradentes, voltar para o instituto de educação. vou ser agronômo um dia. só pra desperdiçar o saber. gostava tanto de ler e agora leio as capas e me dá preguiça saber que acaba. quase tive um susto quando mergulhei no mar. achei que morria, mas depois vi nem era tarde pra tentar me salvar. e me salvei e cheguei à praia.
hoje tenho medo, ontem tinha apenas certeza do dia.
saudade de te ver como via. s
em saber onde perdi, onde vou procurar?
perdi a confiança em mim. não tenho certeza de tudo, como tinha.
fui tanto pra tantos. achei que era.
não fui nada, ninguém me busca.
tenho medo de ser eu, o outro.

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