quinta-feira, 14 de agosto de 2008

palma

Queria abrir minha mão e ver você

Como vi hoje.

Ou decorar sua voz baixa

Quase um sopro, um me socorre.

É assim que te vejo às vezes

Uma flor, uma delicadeza.

Você me empolga, me desacelera

Me toma quase todo os motivos.

Sabe que hoje te beijei?

Com os olhos te dei um pequeno beijo.

É assim que eu tenho você

Se você me tem.

 

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Uma mensagem imperial - Kafka


O imperador – assim dizem – enviou a ti, súdito solitário e lastimável, sombra ínfima ante o sol imperial, refugiada na mais remota distância, justamente a ti o imperador enviou, do leito de morte, uma mensagem.

Fez ajoelhar-se o mensageiro ao pé da cama e sussurrou-lhe a mensagem no ouvido; tão importante lhe parecia, que mandou repeti-la em seu próprio ouvido. Assentindo com a cabeça, confirmou a exatidão das palavras.

E, diante da turba reunida para assistir à sua morte – haviam derrubado todas as paredes impeditivas, e na escadaria em curva ampla e elevada, dispostos em círculo, estavam os grandes do império –, diante de todos, despachou o mensageiro. De pronto, este se pôs em marcha, homem vigoroso, incansável.

Estendendo ora um braço, ora outro, abre passagem em meio à multidão; quando encontra obstáculo, aponta no peito a insígnia do sol; avança facilmente, como ninguém. Mas a multidão é enorme; suas moradas não têm fim.

Fosse livre o terreno, como voaria, breve ouvirias na porta o golpe magnífico de seu punho. Mas, ao contrário, esforça-se inutilmente; comprime-se nos aposentos do palácio central; jamais conseguirá atravessá-los; e se conseguisse, de nada valeria; precisaria empenhar-se em descer as escadas; e se as vencesse, de nada valeria; teria que percorrer os pátios; e depois dos pátios, o segundo palácio circundante; e novamente escadas e pátios; e mais outro palácio; e assim por milênios; e quando finalmente escapasse pelo último portão – mas isto nunca, nunca poderia acontecer – chegaria apenas à capital, o centro do mundo, onde se acumula a prodigiosa escória.

Ninguém consegue passar por aí, muito menos com a mensagem de um morto.
Mas, sentado à janela, tu a imaginas, enquanto a noite cai.

domingo, 10 de agosto de 2008

Você diz agora

Não sei o que despertou você gostar de mim,

não podemos ter futuro.

Eu sei o seu passado e seu presente.

Portanto não peça que eu vire meu mundo

ou que perca a cabeça.

O retorno e logo ali, volte e me esqueça.

Você sabe bem o que falar o que tem dentro,

mas em mim não há nada acontecendo.

Por favor me entenda,

é assim meu momento.

As palavras falam a sua verdade mas mentem sobre o que virá.

Sei que parto seu coração quando não falo,

por isto te ligo na terça,

mas ouça o que te falo agora.

O retorno e logo ali,

volte e me esqueça.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

início e fim

Transformo pedido em  acontecimento de fato, pois meu lado prático diz que não posso evitar o que me mandas. Esforço-me em tratar o não feito como sonho. É melhor para meu descanso, quando desço as pálpebras e não me chegam seus pertences. O que é seu continuará em algum lugar sendo seu, sabendo ou não, embalando ou não. Estranho não descobrir o que me tranca dentro de você e o que me deixa de fora da  minha vida. Estar na rua, com o sol que passa a ser seu, a ter uma cor que é sua, um calor que me lembrarei quando precisar de saudade, de ondas de delícia, de sabores inesquecíveis. Como não caber, como não sofrer o que me deu o gozo de ser seu, sendo tudo apenas meu. Concordo apenas durante o tempo que desço mais fundo. Agarrar algo para quê? Tudo que me toca o coração está no percurso, no caminho, na parada. Por onde eu vou. Acompanha-me a sorte de ouvir sua voz, seu sorriso, o cabelo que se incomoda com a moda da cor. Não me mudo, não me movo, não pisco o olho sem antes ver se perco o foco. Meu ângulo ou ponto de vista não é único, mas não desvio olhar de quem me inspira. Respiro, pausado, entrecortado. Espasmos de lucidez, loucura permanente querendo descanso, recreio. Tolero o tempo apenas quando não é você na memória. Nas suas horas ele não existe. Apenas vejo o fim do tempo e sei que nada aconteceu da sua parte. Como prometeu. Quero jogar no campo, nos campos, nas árvores, entre as folhas e folhagens tudo o que foi desperto, tudo que me faz duvidar, tudo que me faz entristecer. Devo? Onde estão as palavras desta peça, monologo, que choro por não ouvir? Amanhã está tão longe para mim que não sei se quero que exista. Que sabedoria é esta que não fala, não compreende, não repreende, não suspende. Apenas suspeita a espreita que há em todo o dia. Transforma seu silêncio em pedra sobre pedra, algo que não se sufoca, não comporta, não se comporta. Inaudível não. Inteligência estratégica, revolucionária. É assim que deve ser? Onde está esta receita, virão também as respostas de todos os porquês?

doação

Pensamentos confusos e contraditórios.
Escolher não dói, diz, o depois é que vem em cima./
Qual a força maior?
O agora sem saber é menor que o depois sem?/
Não escolhi quem podia ver o que vejo e não escolhi você para dar agora o que sinto./
Dar para quem está no pensamento ou para a presente?
Apenas dar, doação, pedaço, sentido da vida e por ela./
Admira-me pela divisão em par./
Sou assim justo comigo.

em você

já fui sim/
assim fui a fundo
e justo/
agora retorno.
até escuto sons
que não vem/
que não são.
Procuro fora/
tudo agora/
que está em você.

grato

Eu já seria grato se a tivesse na escada, no altar, no escorregador.

Mas tê-la tão gata!

Ah meu Deus isto seria a maior graça!

inteira como poesia

A poesia sozinha não é capaz de conquistas.

As palavras sozinhas muito menos.

O que conquista é entrar,

é se sentir imensa,

se sentir suspensa,

se sentir intensa,

se sentir inteira.







Se sentes algo ao ler,

e que algo preencheu,

ou andou junto com o pensamento,

ou com a ausencia.

Se causa um suspiro,

se surpreende,

surpreso espero.

um, dois

Os olhares enganaram. Do outro lado os olhos não viram o que não queriam ver. Foram se encontrar e não disseram. Não podiam se ter.





Tudo é falta. Tudo é desassossego, esta palavra que sopra. O coração não olha nem mede conseqüência, por isto tromba, tropeça e se engana. Sabedoria vem de saber, esperar e pesar. O coração? Só pesar.

brancos

Um dia ela chegou e me viu. Ou eu a vi primeiro, não sei. Nos tocamos ao sermos apresentados e logo em seguida eu já a observava. De forma contínua. E eu não parei mais. Boca e o sorriso nela eram algo que chamavam a atenção. Era como se fosse uma banda tocando. Impossível não olhar para seus lábios quando ela falava. E o som que saia dali, imagino como lembrar para sempre...Suas mãos e gestos davam voltas no espaço. Seus braços davam a harmonia. Desenhos apareciam. Acho que seus eram brancos...

terminal 1

Estou terminal. A data para o desgosto já existe. Mas ainda tenho tempo para lhe descrever o pensamento. O todo sentido, imaginado e sonhado. Qual a sua verdade?

delícia de texto

http://perdendo-o-medo.blogspot.com/2011/07/dueto-virtual-de-um-romance-astral.html